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Polícia registra aumento no número de crimes da internet em Alagoas



CRIMES CIBERNÉTICOS

Internet e aplicativos, dupla inseparável e de inúmeras possibilidades para relacionamentos, mas também uma armadilha para golpes e invasões de privacidade. Casos recentes, como o de divulgação de nudes e de golpes patrimonial, demonstram a fragilidade do mundo virtual. De acordo com a Seção Antissequestro e Crimes Cibernéticos, mais de 60 pessoas já foram vítimas do golpe do Whatsapp clonado.
Os estragos em Alagoas são incontáveis e se enquadram em três linhas de crimes. São elas: patrimoniais, sexuais e de honra. A Gazetaweb apurou dados sobre casos de estupros virtuais, de divulgação de supostas fotos íntimas e de estelionato, tendo como vítimas, inclusive, autoridades alagoanas.

O caso da divulgação da suposta imagem de nudez do prefeito de Palmeira dos Índios, Júlio Cezar, é recente, emblemático e, de acordo com o delegado Thiago Prado, titular da Seção Antissequestro e Crimes Cibernéticos, da Gerência de Recursos Especiais GRE/DEIC, a Perícia Oficial ainda investiga se é montagem.

“Pegaram uma cena dele em frente ao espelho. Caso clássico de que quem teve acesso àquela foto, provavelmente alguém que teve um relacionamento com ele e que acabou. Ainda estamos investigando, mas estamos próximos de solucionar o caso”, diz o delegado Thiago Prado.

A divulgação de imagem íntima de pessoas faz parte de um dos diversos campos da rede.

“De início, não há como afirmar se foi ou não montagem, só a perícia. Mas o que importa é que há uma imagem da pessoa em cena de nudez, seja com montagem ou não. A imagem está sendo exposta sem o consentimento daquela pessoa”, afirma o delegado. Por sua vez, o prefeito exposto disse que o caso corre em segredo de Justiça e, por isso, evita qualquer declaração para não atrapalhar o trabalho da DEIC.

Segundo Prado, crimes cibernéticos propriamente ditos ainda são pouco registrados em Alagoas. “Estes se tratam de invasão de um computador à distância. Um exemplo é o caso da Prefeitura de Teotônio Vilela, em que pegaram dados e exigiram uma quantia, geralmente os golpistas pedem em bitcoins, que são difíceis de rastrear. Nesses casos, é praticamente impossível fazer a descoberta, porque são crimes sofisticados. Esse é o crime cyber”, explica Thiago Prado.

Já os crimes praticados pela internet são recebidos com frequência consideravelmente maior na delegacia. “São crimes vulgarmente chamados de cibernéticos, mas são apenas crimes praticados pela internet. São casos como os de estelionato por whatsapp ou por páginas de compra”, explica.

Crimes contra a honra

“O mesmo ocorrem com ofensas, que podem ser praticadas por carta. Quando se pratica pelo facebook é o mesmo crime. Não foi específico da internet. Se alguém pegar fotos sem ter em mãos ou acessar o celular da pessoa, aí sim é um crime cibernético, porque não teria outra forma de cometê-lo”, esclarece Delegado Thiago Prado.

Além dos problemas burocráticos, um balanço mais preciso dos casos também é difícil de ser obtido, já que muitos crimes cometidos pela internet estão classificados a partir de sua tipicidade original.

“Crime de difamação, por exemplo, se foi cometido pelo facebook e a pessoa vai à delegacia, às vezes não será confeccionado no B.O. essa informação de que foi na internet, mas de injúria”, afirma o delegado.

Esse ano, ainda conforme os dados divulgados por Thiago Prado, cerca de 15 pessoas já chegaram a ser indiciadas em casos de crimes contra a honra praticados pela internet.

“O interessante é que, hoje, a legislação já tem evoluído”, comenta, exemplificando o caso da Lei Carolina Dieckman.”Você pode receber a imagem da pessoa, em casos de relacionamento amorosos, mas se for encaminhado se configura crime. Então você envia a foto para o namorado, e um ano depois há o término do namoro. Ele teve acesso por sua vontade, mas se ele passar para os outros, já incorre em crime. E é um crime de pena considerável”, alerta o delegado.

Golpe virtual: o crime mais comum

Com mais de 60 casos até a última quinta-feira, 13, (e contando) registrados em Alagoas, o golpe do Whatsapp é bem conhecido e está inserido no tipo cibernético, além de ser patrimonial.
O delegado Thiago explica que o golpe acontece basicamente quando o criminoso instala o aplicativo de mensagens instantâneas em um aparelho telefônico, cadastra uma linha aleatória, e passa a pedir dinheiro para pessoas próximas à vítima, inventando algum tipo de situação de necessidade específica ou apuros. “Infelizmente, as pessoas têm caído com bastante frequência nesta ‘modalidade’ de estelionato”, lamenta.

Esses casos de Whatsapp têm sido tão frequentes que, segundo o delegado, é possível que sejam realizadas operações em parceria com outros estados. “Esses casos não estão acontecendo em demasia só em Alagoas, mas em todo o país. Estamos em contato com policiais civis de outros estados para tentar montar uma evolução conjunta com esse trabalho”.

Outro crime patrimonial é possível identificar, principalmente durante a alta temporada, quando turistas buscam casas de veraneios em sites. No fim do ano, por exemplo, o aluguel de casas deve ser feito com cautela.

Por contar com amigos alagoanos, a sergipana Maria Louis* conseguiu não cair em um golpe em Alagoas. Ela buscava uma casa em Maragogi durante o período de carnaval e encontrou um imóvel visivelmente abaixo do custo. Ao iniciar a troca de mensagens com o responsável pelo anúncio, identificado como José Francisco, o dito “proprietário” do imóvel informou que a casa estava disponível por R$ 3 mil para o período de cinco dias.

“Desconfiei do valor e falei com um amigo, delegado, que também ficou desconfiado, daí ele falou a esse senhor que iria ver a casa, mas sem se identificar. Daí esse senhor parou o contato”, explica. “Uns quatro dias depois ele postou no stories do WhatsApp que aguardava o deposito das pessoas que locavam a casa. Foi aí que tive certeza que se tratava de um golpe. Porém imagino que mutias pessoas tenham feito a transferência”, diz.

Expondo com detalhes as imagens dos cômodos, o pseudo-proprietário ainda detalhou que disponibilizaria o serviço de um caseiro para limpar a piscina diariamente e que a casa tinha ar condicionado em todos os quartos. Por fim, solicitou o valor de 50% do imóvel como “sinal”, junto a um contrato, e outros 50% a ser entregue no ato da entrada na casa.

Ao fim, foi descoberto que o imóvel existia e já havia sido posto para aluguel em épocas anteriores, de modo que as imagens dos cômodos ficou disponível na internet – incluindo para os criminosos que as utilizaram para cometer o golpe.

Sedução virtual

De olho nos aplicativos e nos casos de sedução virtual, o delegado ainda relata casos que pessoas são vítimas de envolvimento em relacionamentos com indivíduos que não existem, crime em geral associado a estelionato. “O caso mais recente foi de um suposto sargento dos Estados Unidos, que conversou virtualmente por um tempo com a vítima, uma senhora alagoana”, conta.
Quando a vítima já estava afetivamente envolvida, o criminoso contou para ela que estava no Iraque e, para retornar para Brasil – de modo a conhecê-la – teria que pagar um seguro. Foi então que a senhora desembolsou R$ 20 mil e o suposto soldado sumiu.

“É preciso atentar que relações virtuais não necessariamente representam a realidade. A pessoa que está falando às vezes não existe. É uma farsa. É necessário que as pessoas desconfiem desse bate-papo online e evitem pagamento ou forneçam ajuda a essas pessoas pela internet”, diz.

Um dos casos, que se enquadra em sedução virtual, é o estupro virtual. De acordo com o delegado Thiago Prado, o criminoso teve acesso a fotos de uma vítima. “Ela salvou e perdeu as fotos, ou enviou para alguém e acabou se perdendo. O fato é que imagem acabou caindo na mão de um criminoso. Ele começou a mandar ela aparecer nua para ele através de Facebook, ou ele iria divulgar as fotos. Ou seja, ele faz a chantagem e obriga a vítima a cometer algo que não quer”.

Nesse caso, o delegado atenta que a pessoa não deve ceder à chantagem, nem fornecer nenhuma outra imagem. “O ideal é que bloqueie a pessoa do perfil do Instagram ou Facebook e procure a delegacia de polícia pra registrar a ocorrência”, faz o alerta.

O crime ainda está inserido entre os crimes sexuais cometidos na internet que, em 2018, foi registrado dez vezes pela delegacia.

Papo com psicólogo:cuidados com relacionamentos virtuais

O psicólogo Vitor Luz indica que todo relacionamento seja ele à distância ou físico exige cuidados e combinados, sendo necessário reflexões como: “Quero namorar? Quero apenas ficar? Quero alguém para dividir meus dias, mas cada um em sua casa?” Definido o objetivo, é indicado criar uma listinha de preferências: alto, baixo, mais cheiinho, mais magrinha, trabalhador, mais zen, surfista ou executivo.
Já dizia o grande sábio, “o combinado não sai caro”. “Os aplicativos de relacionamento foram criados para estreitar a distância entre as pessoas que estavam em busca de aventuras, lances casuais e até mesmo algo mais sério. Antes de nos aventurarmos na busca de um relacionamento precisamos refletir e pensar sobre o que desejamos. Seja qual for os critérios de encantamento, eles precisam estar bem definidos, não há nada pior do que perder o nosso tempo e o do outro. Então os cuidados devem começar com sua própria preservação. Nunca devemos esquecer que coração é terra que ninguém pisa, portando, aprenda a ser cuidar”, diz.

Vitor Luz afirma, ainda, que algumas pessoas preferem se relacionar virtualmente pela ausência do contato físico, de modo que nesses casos há ainda um processo de insegurança ou até mesmo um comportamento ansioso. Algo como: “será que o outro vai gostar mim como sou?”. Outras pessoas não possuem estrutura emocional para permanecer a distância, elas necessitam de contato físico, uma presença mais real e só em pensar em permanecer muito tempo longe de quem se ama, a ansiedade já aparece. E orienta: “Vale olhar para dentro e buscar as razões: que tipo de relacionamento eu preciso? Qual estilo de relacionar-se me faria mais feliz?”.

Outro fator que deve ser levado em consideração é a intensidade de como as relações virtuais são formadas.

“A intensidade tem uma relação direta com a vontade de relacionar-se. Se o sujeito deseja se relacionar pela internet e não se sente bem quando o outro parceiro que mora em outra cidade sai para um barzinho sem ele e com os amigos, certamente teremos alguns conflitos à vista. Reforço que relacionar-se exige desejo, verdade, sentimentos verdadeiros, transparência, respeito e acima de tudo, amor. Virtual ou presencial, vale ser feliz e estar atento as necessidades do outro”, diz Vitor Luz.

Vitor ainda orienta os internautas que estão procurando um relacionamento pela internet.

“Sempre recebo pacientes no consultório que já vivenciaram alguma desilusão amorosa, que poderia ter sido evitada se critérios fossem estabelecidos. Por não sabermos o que queremos, acabamos fazendo escolhas erradas que são capazes de ferir nosso coração e comprometer nossa estima. Entre a pressa e a cautela, o amor pede cautela”, acrescenta dizendo que “se você está buscando alguém para se relacionar pela internet pois não encontrou ninguém em sua cidade, vale olhar para você mesmo e buscar sua melhor versão”.

Para quem já sofreu com algum golpe, Luz afirma que as coisas são mutáveis e existe uma mágica nisso.

“Devemos buscar aprender com nossas experiências do passado e usar todas as frustrações para aprendermos a escolher melhor ou a não entrar em enrascadas. Nos frustramos por expectativas que nós alimentamos, então antes de criar ilusões, busque verdade, tanto no outro, quanto em você. Ninguém merece ser enganado e essa reciproca é verdadeira”.

Burocracia

Embora alguns casos sejam relativamente fáceis para os investigadores – como é o caso de perfis falsos, que sempre são identificados – há ainda alguns desafios enfrentados pela Polícia Civil. Uma delas é a burocracia das empresas em que os crimes circulam.

As empresas estrangeiras são identificadas como as mais complicadas pelo delegado. “No whatsapp, as informações são criptografadas. A gente não tem acesso porque é criptografia de ponta à ponta. Então a gente tem que achar outros mecanismos para encontrar a autoria do crime”.